Crônica: Nova York ou Copenhague?
Engº Jorge Briseno
Diretor da Casal
Poucos brasileiros se perguntam sobre o que acontece com o lixo que produzimos em nossas residências. O Brasil gera, diariamente, em torno de 160 mil toneladas de lixo urbano. A maior parte é transportada aos lixões. Em torno de 30 mil toneladas sequer são coletadas e vão dar nos nossos rios , lagos, riachos, etc. Para complicar, a produção per capita aumenta escandalosamente. Passamos, em 25 anos, de 0,5 kg / dia por habitante, para 0,9 kg / dia. A maior parte desse acréscimo decorre da geração de lixo seco, isto é, de materiais que poderiam ser reciclados ou reaproveitados, como papel, papelão, vidros, plásticos, etc.
O Brasil está diante de uma encruzilhada ecológica. Ou seguiremos o exemplo de Nova York ou de Copenhague.
Nova York, que encanta os novos ricos brasileiros, é considerada pelo jornalista e ambientalista Washington Novaes, como a capital mundial do lixo. Seus habitantes já produzem uma média de 3 kg / dia de resíduos. Não existe mais área próxima em condições de receber resíduo. Parte do lixo de Nova York é transportado para um aterro, situado no estado vizinho de Virginia, cerca de 500 km distante. O custo desta loucura já chega ao valor de 80 dólares a tonelada de lixo produzido na cidade. Um modelo de vida insustentável, diante do que extraem da natureza. O americano médio, ao longo de sua vida, consome 15 mil kg de metais, 16 mil de papel, 500 mil kg de materiais de construção, 29 mil kg de produtos químicos e 22mil kg de madeira. São números impressionantes. Se toda a humanidade utilizasse estes mesmos números nós teríamos que convocar o Criador para “construir” mais 4 planetas Terra. Uma só não seria suficiente.
Copenhague, capital da Dinamarca, preferiu seguir um caminho oposto. É a cidade européia que tem a legislação mais avançada para evitar a produção de lixo, reusar ou reciclar materiais e, só em último caso, dispor os resíduos em aterros. Quase tudo é reciclado ou reutilizado. Apenas 5% dos resíduos são aterrados. Apesar do elevado padrão de vida, tanto quanto ou melhor que o de Nova York, o morador de Copenhague produz apenas 0,8 kg / dia. Este número não aumenta há anos. Um criativo sistema de retorno de embalagens é um dos caminhos utilizados para a redução de lixo.
Desde a década de 60, Copenhague cuida da reciclagem de produtos e do uso retornável tanto de garrafas como de embalagens. Quando uma pessoa compra em um supermercado algum produto que tenha uma embalagem de vidro e plástico, ela paga também pela embalagem e ao retornar a mesma recebe um cupom que lhe dá o direito de receber seu dinheiro de volta. O sistema deu tão certo que alguns supermercados chegam a receber 3 vezes mais embalagens do que vendem. É proibida, a utilização de embalagens que só possam ser utilizadas uma única vez, bem como a ida de lixo orgânico para aterros. O produtor é responsabilizado pelo pós-consumo de seu produto e pelo retorno ao processo produtivo da embalagem. Já foram identificadas embalagens com 25 anos em uso.
Como o custo de aterramento é propositadamente alto, 90% dos materiais de demolição de construção são reciclados. Os moradores pagam caro pelo lixo excedente da quota dos seus containeres (depósitos) coletados pela municipalidade, incentivando-os a separar e reutilizar seus resíduos. Seguir o exemplo de Nova York ou de Copenhague é um dilema que os brasileiros devem decidir. Maceió, por exemplo, enfrenta esse problema há anos. Seria interessante imaginar Maceió sem necessitar de um aterro para dispor seu lixo e sem necessidade discutir a viabilidade de colocarmos uma dessas unidades na Bacia Hidrográfica do Pratagy.
Sabemos que um aterro construído dentro do que exige a legislação ambiental e bem operado, torna-se bastante seguro. No entanto, a comunidade de Maceió não discutiu a equação financeira que dará sustentabilidade operacional à essa unidade, hoje em torno de R$ 650.000,00 mensal.
Um aterro, para se transformar em um lixão, só necessita de uma semana sendo mal operado. E de unidades mal operadas, na Bacia do Pratagy, já nos bastam os tanques de vinhaça de algumas usinas cavavieiras.



