Maracatu Baque Alagoano e a coroação de um Rei alagoano de Maracatu-nação

 

Pensar numa África composta por homens e mulheres negras, dotados de grande aptidão para a dança e música percussiva e seguidores de uma religião politeísta voltada para o culto dos orixás é comum para a maioria dos brasileiros. A realidade, no entanto, se afasta desta imagem simplista. Os aspectos linguísticos, com seus milhares de idiomas e dialetos, religiosos e políticos do continente africano são tão complexos que se torna impossível conceber uma unidade cultural em termos de costumes e usos. Verifica-se que tal simplificação do “povo africano” foi construída durante os anos em que prevaleceu a escravidão negra no Brasil, onde as nações escravizadas eram misturadas no intuito de enfraquecer estes aspectos e sobrepujar a diversidade cultural destes povos.

Dentro deste contexto, uma das formas encontradas para controlar os negros escravizados foi a criação de uma hierarquização dentro de suas comunidades, com as denominadas coroações de reis negros. Tais coroações aconteciam sob o controle da sociedade branca e dentro de igrejas católicas, que na época tinham a missão de socializar a população negra em espaços destinados a irmandades de homens pretos escravos ou livres, de descendência africana. Existem registros desta prática em países diversos, como na Espanha (1475), França (1498) e Portugal (1563). No Brasil, um dos registros mais antigos desta prática é de 1674, em Pernambuco. Devido a estes espaços restritos a homens pretos, algumas igrejas, como a de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, ainda possuem grande importância para as comunidades negras de Pernambuco, pois se elas serviam para a “domesticação” dos escravos, também serviam para a afirmação cultural e para a construção da identidade negra no Brasil, sendo consideradas os primeiros “terreiros” afrobrasileiros.

As coroações, sob o ponto de vista da classe dominante, serviam para facilitar este domínio e para garantir diversão aos escravos, já que estes por um momento saíam das atividades laboriais e teatralizavam infantilmente uma monarquia negra, com suas insígnias e cortejos reais de maracatu. Estas coroações, em Pernambuco, aconteceram até 1848, devido à romanização das igrejas católicas e à proibição de manifestações de cultura popular no interior dos templos. Apesar da proibição, tais coroações continuaram acontecendo nas portas das respectivas igrejas, sendo coroados os Reis de Maracatus-nação.

A cultura popular e a identidade de um povo estão em constante ressignificação, e as coroações de Reis de Maracatus-nação devem ser consideradas diante das mudanças históricas e do momento histórico, e não de uma forma linear de continuidade ritualística. Uma prova disto foi o trabalho feito pela elite intelectual de Recife, no século XX, para a construção de uma identidade pernambucana negra forte e ligada à religiosidade de matriz africana, que resultou, por meio de um processo de busca de reconhecimento e de sobrevivência, na ligação dos Maracatus-nação, e por consequência as coroações, a estas religiões.

Atualmente, por essa ressignificação, considera-se que a relação dos Maracatusnação com as religiões de matriz africana é primordial para a sua legitimação como puramente popular, já que, neste universo, um maracatu só é tido como autêntico e legítimo se estiver ligado a um terreiro. A coroação se tornou, então, uma confirmação de um poder real e uma sagração, sendo assim uma solenidade com dois sentidos, onde existe um reconhecimento do povo que vive sob os cuidados daquele que é coroado e do poder religioso que o coroou. No ritual também há um ato de reconhecimento da sociedade, já que esta aceita o poder e a ascendência do Rei ou da Rainha sobre sua nação, estabelecendo, ainda, uma perpetuidade no cargo, já que, depois de coroado, dificilmente o monarca poderá ser contestado ou destituído.

Mesmo que muitas vezes pensada, de forma reducionista, como algo meramente teatral, folclórico e inocente, a coroação de um rei de maracatu na realidade permite que este seja desta forma reconhecido, não só pela sua nação, mas pelos poderes constituídos que permeiam as relações entre os maracatus, que entendem o ato como um ritual de verdadeiro reconhecimento e sacralização do poder real, e destes com a sociedade. Desta forma, a coroação estabelece uma rede social e política complexa, que busca uma reafirmação da própria identidade e tradição, solidificadora da posição da etnia negra daquela comunidade dentro da sociedade onde está inserida.

Estando Alagoas contida em Pernambuco até 1817, a maior parte da história das coroações dos antigos Reis do Congo e de Reis e Rainhas de maracatus também pertence, de forma indireta, aos alagoanos.

Diretamente, a história do nosso maracatu é mais recente, do final do século XIX, e aponta para as atividades do terreiro de Tia Marcelina. Em outras palavras, diferentemente do que aconteceu com os Maracatus-nação em Recife, onde a mediação cultural por parte dos intelectuais serviu para que aqueles se unissem às religiões afrodescendentes, o maracatu alagoano surgiu diretamente nos terreiros e os estudos mais conhecidos não relatam coroações neste período. Porém existe similaridade com a trajetória dos maracatus de Recife a partir do momento em que o grupo percussivo Maracatu Baque Alagoano começa, em 2007, a reescrever a história do maracatu em Alagoas e proporciona a aceitação e a abertura social ideal para o surgimento de outros grupos, inclusive de Maracatus-nação, como a Corte de Airá, que, em 19/11/2011 terá o primeiro Rei de maracatu coroado em terras alagoanas, pai Elias de Airá. O Maracatu Baque Alagoano reconhece que um de seus objetivos está sendo concretizado com esta solenidade histórica e estará presente, legitimando com toda a sua percussão este importante ritual de coroação.


Júlio César Andrade