O Estilo da Casa de Jorge de Lima

ImageA compreensão dos estilos arquitetônicos exige bem mais do que a sistematização acadêmica quase dogmática. É preciso ir além da leitura arquitetônica. Nem sempre os elementos falam por si mesmos desagregados da compreensão sociológica da história. A sociedade brasileira criou sua urbanidade, a princípio, pela necessidade depois pela demonstração de força, poder e status, mas, também pela xenofobia, o que nos faz lembrar o Movimento Modernista.

O Brasil do início do século, principalmente, a capital federal confundia-se com Paris ou Milão ao gosto do urbanista do século: o Barão George-Eugène Haussmann – o prefeito de Paris. A opulência do período fazia a burguesia exigir, cada vez mais conforto e requinte como ruas pavimentadas, iluminação elétrica, praças e belas residências. Isto tudo de conformidade com o ecletismo em voga, o que incluía, a princípio até uma rejeição ao Arte Nouveau, considerando que o neoclassicismo era dedicado às obras públicas e o neogótico aos templos, exceto as janelas utilizadas nos chalés. Um exemplo dessa preferência pela multiplicidade estilística é a construção do Teatro Municipal, quase uma réplica do Palais Garnier, tão criticado pela profusão de estilos.

Pode-se dizer que a busca de um estilo nacional foi patrocinada pelo engenheiro português Ricardo Severo(1869-1940) que após dilapidar a fortuna deixada por Henrique Dumont, seu sogro, voltou ao Brasil e se uniu ao arquiteto Ramos de Azevedo. Ele, praticamente, bradou aos quatro cantos um estilo novo baseado no historicismo colonial, ou um transplante da urbe portuguesa que tanto conhecia. Mas esta fome de nacionalismo não estava reservada apenas ao Brasil, mas a toda América Latina e Flórida, nos EUA onde o estilo proliferou vorazmente. O neocolonial surgiu bem mais como uma ideologia do que como um estilo arquitetônico. O próprio Mário de Andrade tem dúvida: “Em primeiro lugar, será um bem ou um mal estarmos trabucando por um estilo nacional de arquitetura no tempo de agora?”.

Foi este pseudo-estilo “neocolonial” que se configurou ao bel-prazer regional e criou tantas insinuações arquitetônicas. A Casa de Jorge Lima é uma destas obras emblemáticas do ecletismo. Não ostenta elemento algum da semente portuguesa, salvo pelo telhado alongado, mesmo assim desamparado de eira e sobreira, cortado por um meio frontão neobarroco e quanto a azulejaria, esta vogou em muitas outras obras, a exemplo da destruída “Casa Rosa” da Pajuçara. Sua fachada em nada senhorial, mas burguesa, com janelas bem ornadas e varanda superior descoberta, jamais pode ser confundida.

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por Benedito Ramos